{ANALYTCS}

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Lenitivo

Hoje acordei mal.
Um antigo problema de saúde voltara a incomodar tanto que não consegui sequer concluir meu expediente no trabalho.
Deitado e aproveitando o dia, tremendo de frio e completamente incapaz de levantar para fazer algo útil, vi minhas opções de ocupação delimitadas ao bom, velho e impotente ofício de pensar.
Nesse mister, lembrei de quando era criança, algumas vezes em que assisti àquelas tradicionais "rodas" em que crianças brigam aos socos, para o deleite da nobre plateia de iguais moleques (das quais, confesso, já participei).
Naquelas situações era comum o sujeito que perdesse a briga - ou seja, aquele que mais apanhasse - chorar e buscar de refúgio.
No entanto, o bom marketing não admitia que os ferozes combatentes chorassem, em especial quando isso significava admitir que o outro lhes provocara sofrimento.
Eram esses os momentos em que os destemidos buscavam exibir o modo mais antagônico à dor - o sorriso.
Parecer feliz e tranquilo, então, era muito mais que sê-los. Era questão de vitória.
Afinal, não há meios de se saber quem sente mais dor; logo, aquele que forçasse o maior sorriso (por mais ridículo que o seja), acreditaria sair vencedor.
Não demorou muito para que todos no colégio percebessem tal estratégia e passassem a caçoar ainda mais com frases do tipo ("Fulano, pode chorar que eu sei que está doendo". Ou "Não finja não, que essa risada tá sem graça").
Mesmo assim, quando se via a derrota pela frente, não havia outro recurso. Lá surgia aquele mesmo riso com cara de choro.
E o que o ocupadíssimo leitor tem a ver com isso? - Pergunta-se.
Nada - digo eu.
Apenas lembrei de minha infância e conclui que pouca coisa muda quando se trata de gente.
Passaram-se mais de quinze anos desde aquele tempo e até hoje os falsos adultos fazem a mesma coisa.
É mais que comum se lerem e ouvirem geniais frases do tipo "sou mais eu", "quem perdeu foi ela/e", "eu gosto de mim, não dela/e" e coisas dessa jaez.
Até a nata da musicalidade nacional ostenta bordões do tipo "tô nem aí", "tô fazendo falta", "Baby,sou mais eu", sem falar no mais inteligente e elegante de todos: "a fila anda".
De igual sorte, os sites de relacionamento e as emissoras de rádio tornaram-se uma "second life" para todos os desafortunados buscarem, a todo custo, forjar um personagem feliz e bem-sucedido.
Segundo tal doutrina, ainda inominada, parecer feliz é, portanto, muito mais importante que ser feliz.
Dedicar-se a encenar uma vida feliz, viajada e divertida faz pessoas que sequer entendem que supertição nada tem a ver com uma brasa grande sentirem-se nas páginas da Revista Caras, enquanto postam suas maltiradas fotos em sites de relacionamento contaminados do mal português e frases repetitivas. As familiares mocinhas, coitadas, buscando parecer atraentes e viajadas  (pretendendo bons moços para o matrimônio) lembram em muitos aspectos os classificados de acompanhantes.
Pergunto-me (e lhes), então, qual preocupação alguém que está feliz teria em mostrar com tamanha veemência sua boa vida aos outros.
Será que, mesmo pessoas tão felizes e bem acompanhadas, têm ociosidade o bastante para ficar horas dizendo aos demais que deles não precisam?
Ora, creio que não seja tão bem-sucedido quanto alguns conhecidos meus que não possuem problemas, sempre dão a volta por cima e sequer lembram de antigos afetos e desafetos. Mesmo assim não tenho tempo (nem necessidade) de simular ao mundo um pop star tupiniquim. Também não preciso tomar emprestadas de novelas as roupas, músicas e gírias cujos significado desconheço.
Bem, o fato é que creio que menos de vinte por cento das pessoas que cabem dentro de um fusca irão acessar esse blog. Dessas, nem cinquenta por cento vão começar a ler esta postagem e, dessas últimas, nada perto de dez por cento chegará ao final (pois está maior que eu esperava...).
Mas o xis da questão (ou objetivo específico, como diria minha professora de orientação à monografia) é: alguém que não se importa com o conceito de outrem precisa expor-se tão vulgarmente, só para dizer-lhes que está "nem aí" para estes mesmos desimportantes?
Como não sou tão espetacular a ponto de ter uma frase que convença o ilustre e intelectual público orkuteano e emeesseeneiro (inventei) de que eu sou "o cara" (embora às vezes me ache, preciso admitir.), não vou prolongar mais - até porque já me distraí e cheguei a esquecer de que estou doente.
No mais, alguém diga para a rinite alérgica que tanto me aflige que eu não estou nem um pouco incomodado. Quem sabe, assim ela desista de me maltratar e eu fique, concretamente, satisfeito.

(Depois eu volto para a revisão do texto.)

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