{ANALYTCS}

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

SOMOS TODOS VISITANTES

Trabalhar no Tribunal de Justiça de Sergipe tem suas vantagens. O salário não atrasa, ambientes relativamente confortáveis, se comparados com a imensa maioria das repartições públicas, e a rotatividade de pessoal na atividade-fim permite que se conheça muita gente legal.
Em contraponto, teimam em saltar aos olhos algumas características tão mal escondidas que, de tamanho absurdo de que se revestem, chegam a parecer estórias de profetas apocalípticos.
A principal delas é que esses pontuais proventos são tão desiguais que comparar o maior ao menor deles chega a ser cínico; principalmente se considerado que os mais mal-pagos dos servidores são aqueles insuficientemente competentes para angariar alguma vantagem financeira extra, pois auferem somente aquilo que uma aprovação por concurso público permite receber - e ainda devem sentir vergonha disso.


Há também o fato de que os colegas da atividade-fim vêm e vão tão rápido que boa parte deles está sempre "em ritmo de treinamento" durante sua estadia em nossos cartórios.
Portanto, como quase tudo na vida, há momentos bons e outros não tão bons quando se vê o Judiciário por dentro.
Mas o que realmente importa é que todos os agentes públicos não são os donos nem a finalidade dos cargos que ocupam. Apenas estão na casa de outrem.
Todo o Poder Público é do cidadão, que deve ser servido.
No presente caso, o proprietário é o jurisdicionado e todos os agentes públicos - satisfeitos ou não - devem comportar-se como bons frequentadores de lugar alheio: fazer com que os reais proprietários não se sintam incomodados e, mais que isso, fiquem plenamente satisfeitos.
Para tanto, é necessário satisfazer o jurisdicionado com uma excelente prestação dos serviços, tendo em vista que é ele quem deve gozar de nossos serviços, não quem porventura possa conseguir uma gratificação.
E não tem como ser excelente diante de tanto trabalho se não houver união, compromisso e, acima de tudo, consciência de que o serviço de um não tem como ser bem-sucedido se o do colega não o for - pois a quem não é bem servido não importa muito onde a coisa deu errado, vez que o que lhe importa é sua prestação jurisdicional, não o apontamento de culpados.
O todo só funciona com a participação comprometida de todos. E aquele "todo" deve ser compreendido como cada processo, cada setor de trabalho, cada atendimento.
Em síntese, estar no serviço público é como visitar um príncipe. E esse príncipe é o nosso jurisdicionado, o qual, por mais humilde que seja, é o dono do lugar em que estamos e vai à repartição usar o que lhe é de direito. Não pedir favores.
Portanto, ao minutar uma sentença de milhares de reais, expedir um mandado ou mesmo numerar uma folha num processo de juizado especial, vez ou outra a cabeça dispersa e se ocupa com divagações sobre minha real posição e a necessidade de me comportar como um bom e educado hóspede: dar o melhor de mim ao generoso anfitrião que me acolhe e custeia minha sobrevivência - independentemente daquilo que queiram os demais visitantes que não tenham a mesma consciência e porventura prefiram servir a outros visitantes ou mesmo se comportar como se fossem donos da casa.

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